domingo, 15 de maio de 2011

Um dos líderes na luta dos direitos dos homossexuais no Brasil fala sobre união estável e a batalha contra a homofobia


TV's LCD, Home Theater, Celulares, Som Portátil

"Queremos respeito"

Um dos líderes na luta dos direitos dos homossexuais no Brasil fala sobre união estável e a batalha contra a homofobia




foto: Divulgação
Final feliz. Após 21 anos de convivência, Toni Reis e o inglês David Harrad oficializaram a união no início da semana passada, em um cartório de Curitiba (PR). "Foi a união de duas pessoas do mesmo sexo que se amam e querem a cidadania plena", disse Reis, na ocasião


Toni Reis, Presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais


Poucas vezes, questões relacionadas aos direitos e deveres dos homossexuais foram tão debatidas no Brasil. Se há cerca de dez dias os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceram a união estável para casais do mesmo sexo, outra discussão crucial para a classe, o projeto que prevê a criminalização da homofobia está longe de ter um final feliz.

Na quinta-feira, o Senado voltou a avaliar o projeto que criminaliza a discriminação a homossexuais. Mas a discussão acabou em clima de guerra civil em Brasília, com troca de agressões entre o deputado Jair Bolsonaro (PR/RJ) e a senadora Marinor Brito (PSOL/PA).

O assunto, marcado por incertezas, foi um dos pontos abordados durante a entrevista com Toni Reis, militante dos direitos homossexuais e presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT). "Esse é um pedido da sociedade, que hoje está aprendendo a respeitar as diferenças. Tenho certeza de que, se houvesse um plebiscito, a população iria aprovar o projeto de criminalização", acredita.

Reis - que oficializou, na semana passada, a união com o inglês David Harrad, com quem vive há cerca de 21 anos - ainda falou sobre os direitos da classe, a aceitação social e a violência que marca o cotidiano dos homossexuais no país.

Por que a legalização da união estável homoafetiva demorou tanto no Brasil?
Acho que o Supremo Tribunal Federal (STF) agiu até rapidamente. Foi uma atitude corajosa, que veio cobrir a covardia do Congresso Nacional. Esse sim é moroso para debater questões voltadas à homossexualidade. O STF agiu corretamente ao interpretar nossos direitos a partir dos princípios constitucionais e dos direitos do cidadão.

O conservadorismo dos políticos de Brasília está entre os maiores entraves para novas conquistas da causa? 

Sim. Temos adversários no Congresso Nacional que usam a truculência e sofrem com a falta de informação, como o deputado Jair Bolsonaro (PR/RJ) e o senador Magno Malta (PR/ES), que tratam a homossexualidade como doença e perversão, comparando com a zoofilia e a pedofilia. Parece que estamos vivendo na Idade da Pedra.

Você também considera a bancada evangélica como uma forte adversária?

Não vejo por esse lado. Não é questão de ser evangélico ou católico. O problema é ser fundamentalista. Temos evangélicos conscientes em Brasília, que são aliados da cidadania e contrários à violência e ao preconceito, como a deputada federal Benedita da Silva (PT/RJ) e o senador Walter Pinheiro (PT/BA). Segundo pesquisa feita pelo próprio Senado Federal, 54% da comunidade evangélica é favorável à causa da comunidade.

Quais os direitos e os deveres que a união estável homoafetiva traz para a comunidade LGBT?
A meu ver, a questão do direito da herança é a mais importante. Também conseguimos conquistas essenciais, como o visto para estrangeiro e a permissão de visitas em UTI de hospitais. Entre os deveres está o fato de que você não pode "brincar de casamento". Agora, dividir os bens é lei. Se um casal está mais de cinco anos juntos, e o parceiro tem um apartamento, por exemplo, será obrigado a dividi-lo.

Em países como a Argentina e alguns Estados dos Estados Unidos, por exemplo, há a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Você acredita que o Brasil também conseguirá chegar a esse estágio? Nossa sociedade está preparada? 
O Brasil foi o 34º país a reconhecer a união homoafetiva. Em dez deles, o casamento é legalizado. A decisão do STJ, sem dúvidas, vai ajudar nesse processo, mas creio que essa realidade ainda vá demorar. No Brasil, as mudanças sociais são lentas, vide os direitos das mulheres para votar, por exemplo. A sociedade, aos poucos, vai acabar assimilando o casamento.

De acordo com um relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), a cada 36 horas um homossexual é morto no Brasil. Há explicação para tamanha intolerância?

Essa violência sempre existiu, até em um número maior. A questão é que hoje ela não passa mais em branco. As pessoas estão tendo coragem para denunciar, sem medo de sofrer retaliações, como em décadas passadas. Para resolver essa questão, não existe mágica. A resposta está apenas em uma palavra: educação, especialmente nas escolas. O jovem precisa aprender a respeitar as diferenças e conhecer questões relacionadas à orientação sexual. Nem todo mundo é heterossexual, e precisamos aprender a conviver em harmonia.

Em relação ao projeto de criminalização, você acha que os índices de violência devem baixar após a sua aprovação?
A aprovação é primordial. Quando a Lei do Racismo entrou em vigor no Brasil, por exemplo, os índices de discriminação contra os negros diminuíram consideravelmente. A gente sabe que o racismo existe, mas agora é crime. O problema em relação à homofobia é que temos alguns setores religiosos minoritários que se acham no direito de discriminar e de fazer apologia ao preconceito.

A sociedade vive um estágio de louvação ao politicamente correto. Recentemente, tivemos o exemplo da polêmica causada com o quadro "A Casa dos Autistas", exibido pelo programa "Comédia MTV". Os humoristas foram criticados por ativistas dos direitos humanos, acusados de ridicularizar os portadores de autismo. Com os homossexuais também é proibido fazer humor?

Nós queremos respeito. Ninguém é respeitado sendo motivo de chacota. A questão é ter prudência. Há um nível de humor aceitável. A gente sabe quando uma pessoa está brincando ou agredindo verbalmente. Basta observar o tom de voz e a postura, por exemplo. Ficar se policiando não é saudável.


"Para resolver o preconceito e a intolerância não existe mágica. A resposta está apenas em uma palavra: educação, especialmente nas escolas"
 

"Alguns setores religiosos minoritários se acham no direito de discriminar e de fazer apologia ao preconceito"


História de superação


União. O casamento de Toni Reis (presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, a ABGLT) e David Harrad (foto) na segunda-feira, em Curitiba (PR), veio coroar uma relação que passou por vários contratempos por conta da falta de direitos civis 

Imigração. Em 1996, Harrad, que é inglês, foi autuado pela Polícia Federal por estar em situação irregular e recebeu o prazo de oito dias para sair do país. O caso se tornou público e gerou muita polêmica

Sacrifício.
 A mãe de Reis chegou a se oferecer para casar com o genro para que ele pudesse permanecer no Brasil. Como solução temporária na época, David, que é professor de inglês, fechou um contrato como tradutor para um programa do projeto DST/Aids, desenvolvido pelo Ministério da Saúde

Adoção. Outra dificuldade enfrentada é a adoção conjunta de filhos. Em agosto, completam seis anos que eles aguardam a decisão favorável do Superior Tribunal de Justiça. "Acredito que a união estável facilite a adoção. Queremos um casal. Temos um sonho de construir uma família e vamos conseguir na base da lei", acredita Toni Reis

Situações em alguns países 


África do Sul. O país é uma das nações onde os homossexuais mais possuem direitos. O casamento é permitido desde 2006. A adoção, por sua vez, foi autorizada há cerca de nove anos. Os gays tiveram sua
união legalizada em 1994

Canadá. Os gays podem casar-se e adotar filhos desde 2005. Na época da aprovação da lei, pesquisas mostravam que a maioria dos canadenses era a favor da união homoafetiva

Estados Unidos.
 Apenas alguns Estados permitem a união entre pessoas do mesmo sexo. Entre eles estão Massachussetts, que aprovou o casamento entre gays e lésbicas em 2004, Vermont, Connecticut, Iowa, New Hampshire e o Distrito de Columbia

Argentina. Nossos "hermanos" foram os primeiros na América Latina a reconhecer a união estável e a autorizar a adoção de crianças. Em julho de 2010, o governo de Cristina Kirchner conseguiu vencer a oposição da Igreja Católica

Europa. O continente possui o maior número de países que reconhecem a união estável, em um total de 19. Portugal, Espanha, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Islândia, Suécia e Noruega também permitem o casamento.

Fonte: A Gazeta

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sinta-se livre para deixar um comentário educado... O seu comentário poderá levar alguns minutos para ser exibido.